“Você é muito novo pra isso”.
O comentário foi seguido de um silêncio ansioso, pois a continuação parecia não vir. Às vezes o Ícaro (@icarode.carvalho) causa esse efeito ao falar algo que as pessoas geralmente não têm coragem de dizer.
Dessa vez o comentário era resposta a um pedido sincero de sua opinião. Estávamos em uma van com alguns colegas e o tema da discussão era qual seria seu conselho a um colega, bem jovem, que pensava em comprar um Porsche roxo.
Eu fiquei quieto.
Estou cada vez mais quieto. Não sei se são os lugares, as companhias ou se estou envelhecendo. Em outros tempos, teria soltado uma afirmação provocativa para, então, ser convidado a explicá-la.
Desta vez, por nada ter dito, acabou que o próprio Ícaro recomendou ao rapaz que conversasse comigo, pois eu teria “muito o que acrescentar”. O colega não seguiu de imediato o conselho e terminamos nosso traslado sem que eu precisasse falar nada.
Foi só quando estávamos de saída, já isolados do grupo, que a oportunidade surgiu. O colega veio despedir-se dizendo que “havíamos alugado um triplex em sua cabeça” — o que me chamou a atenção, afinal, levei a culpa pela reflexão sem ter precisado abrir a boca!
Mas se eu já estava culpado, não poderia deixar passar a oportunidade de fazer valer a culpa, e falei então, com sobriedade e objetividade, o que se tornou o tema desta carta:
“Meu caro, um dia meus pais me apresentaram um provérbio que nunca mais esqueci: ‘Mais vale o homem que domina seu espírito, do que o que conquista uma cidade’. Desde pequeno me foi ensinado que o maior desafio do ser humano é conquistar a si mesmo.
Se você se tornar um homem bom, seu testemunho falará muito mais alto do que qualquer carro de luxo ou relógio caro poderiam falar. O relógio e o carro, inclusive, são as coisas mais fáceis de copiar, de tudo o que você tem.
Ser de verdade, no entanto, ah! Isso sim é difícil de mostrar.”
Terminamos a despedida com ele saindo para passear — “preciso andar um pouco, pra pensar”, disse, já fixando o olhar no horizonte.
Esse foi o Porsche roxo, onde entra o lábio inchado?
Diferente do meu silêncio naquela van, enquanto estava preso num vôo de 11h na semana passada, decidi abrir uma sessão de engajamento esporádico no Instagram (como eu chamo as caixinhas de pergunta, visto a frequência com que acontecem) e uma amiga me provocou a dar minha opinião sobre harmonização facial e outras intervenções plásticas.
Com uma sequência simples de três stories falei sobre como vejo a indústria da beleza abusando das inseguranças femininas para vender soluções duvidosas e como a maioria dos homens (que eu conheço, pelo menos) julgam o resultado final bem pior do que as moças aceitam imaginar.
No fim das contas, todo beiço inchado professa uma mensagem: “não me aceitei como sou”.
Meu convite é fazer disso sua filosofia de vida.
“Uai, Jonatas, como você está confuso hoje: a cirurgia é ruim ou boa?”
Estar atento aos seus defeitos e colocar empenho em consertar-se me parece a melhor maneira de viver — se não a única verdadeiramente digna. O problema é que tipo de problema você vai colocar sob o bisturi.
Lábios finos? Dentes pequenos? Carro discreto? Que tal insegurança e vaidade?
Das opções acima, somente uma resolve todos os outros “problemas”. Não deveria estar aí o foco da nossa atenção? Eu julgo que sim, e que colocar esforço em ajustes externos é um exercício de futilidade.
É por isso que as moças “perdem a mão” — e você sabe que é verdade —, e saem da “mexidinha leve” para se tornarem rostos constrangedores: nunca será suficiente. Inchar o lábio, clarear e trocar o dente, apagar algumas rugas ou ficar com o maxilar do Brad Pitt é atacar o sintoma, e não tratar o problema, que voltará, apontando um novo detalhe que precisa ser corrigido.
E não é fácil, eu sei. A lição daquele provérbio é que vencer a si mesmo é um ato heróico. Mas, ei, só covardes fogem à luta.
Eu decidi há tempos, e frequentemente preciso me lembrar desta decisão, que a opinião das pessoas sobre mim deverá ser formada pelo contato com que eu me tornei, e não com o que eu comprei, estou vestindo ou pilotando.
Quero que uma boa impressão seja deixada pelo meu caráter, e pouco importa se cheguei a pé.
“A primeira e maior vitória é conquistar-se a si mesmo.”
― Platão
Obrigado,
Jonatas Figueiredo.
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