“Eu leria…”
Quis começar com a resposta do @douglasnoga ao meu título porque estou muito orgulhoso dele. Quando digo “dele”, me refiro ao título — ainda que também tenha orgulho do Noguinha.
Esse título me veio uma vez que li um “as vezes” sem crase, quando ela era fundamental.
Me frustrei com o erro de sintaxe porque estava ficando orgulhoso da gramática de um texto, cuja autora é minha aluna, pois as linhas anteriores apontavam para um bom conhecimento da gramática, e isso é um diferencial.
Por quê? Oras, é claro: cada vez se torna mais raro encontrar pessoas que saibam o que “sintaxe” significa, quanto mais as que sabem adequar-se à norma gramatical.
Mas não vim aqui promover o meu domínio da língua portuguesa depreciando meus alunos por equívocos menores — justamente o contrário: o tropeço sintático rapidamente se converteu num sentimento agradável ao trazer-me boas memórias.
Se vocês acham que hoje eu escrevo bem, é porque um dia — quer dizer, em muitos dias — eu fui corrigido publicamente, quando eu produzia conteúdo (sim, de verdade, tipo todo dia).
Praticamente todas as correções que me vêm à mente com o mesmo tom de censura que aquele “às vezes” sem crase me gerou são consequências de traumas passados, quando eu também fui exposto pela falta de domínio da língua.
Virou reflexo.
Doeu o suficiente para que eu não tolerasse repetir os erros, e qualquer incidência da mesma corrupção seria devidamente penalizada com ofensas direcionadas ao meu ego e, quando possível, a edição do post para tentar escondê-la.
Sabedoria em 140 caracteres.
Num dia desses eu estava destruindo o bem mais escasso que temos na nossa vida, tempo, enquanto rolava o feed do Instagram, e me deparei com um post em formato de twitt que foi realmente inspirador.
O pequeno texto plagiava uma citação excelente, cujo verdadeiro autor eu não consegui identificar:
“O constrangimento é o preço de começar.
Se você não está disposto a parecer um iniciante tonto, você nunca se tornará um mestre gracioso.”
Eu gostei.
E foi exatamente assim.
A primeira vez em que fui corrigido por um grammar nazi publicamente (no Facebook, à época) eu me senti um idiota.
A regra era tão clara, como era possível que eu não soubesse isso quando sempre tirei notas altas em Português?
Pois é, errei e todo mundo viu.
Mas depois daquele constrangimento inicial, e o respectivo conceito provocador ter sido cravado em pedra na minha mente*, eu percebi que tinha aprendido algo novo.
Pouco tempo depois, tinha segurança de que entendia quando e por que aquele metaplasmo aparecia e precisava ser registrado, e comecei a me sentir mais inteligente… Até que, adivinha?
Errei de novo.
Maldita conjunção! Eu lá ia saber que o acento muda a depender de onde a palavra aparece na frase? Quando foi que a professora ensinou isso? Se bem que… Ah, deixa pra lá!
E assim foi: mais uma regra aparentemente complicada transformou-se num recurso linguístico do meu repertório.
Muitas e muitas vezes mais.
Queria eu que tivessem sido só duas, já teria doído o bastante.
Mas não é assim que a banda toca: quando você se expõe, você… se expõe, oras!
O receio de errar algo bobo me tornava mais prudente, me fez ficar alerta para conceitos não dominados e me aproximou do dicionário. Certamente fiquei mais inteligente com isso.
Ainda assim, nem todo esse protocolo evitou que eu errasse muitas e muitas outras vezes. Cada vez menos, admito, mas sempre que eu pensava estar tranquilo — como há uma semana atrás —, dá-lhe um erro novo esfregado no meio da cara alegórica.
Não faz mal.
Pelo contrário, faz bem!
É importante lembrar que se expor tem seus efeitos, e você pode escolher como reagir a eles. No caso dos erros gramaticais, mudei completamente minha perspectiva: cada erro flagrado passou a ser uma oportunidade de aprender algo novo.
Em vez de tentar justificar meus equívocos (ou erros patentes), aproveito a correção — amistosa ou não — para dedicar alguns minutos de atenção ao conceito e internalizá-lo.
A luta pelas aparências gasta energia demais. Admitir o erro te permite colocar energia naquilo que realmente importa: aprender e ficar melhor a cada dia.
Afinal, às vezes as vezes têm crase.
“O constrangimento dura um momento. O arrependimento, uma vida.”
— Avinash Wandre.
Obrigado,
Jonatas Figueiredo.
e-mails?